Escrito em
08/04/23
Neste dia pela primeira vez utilizei grafismo personalizado
na transmissão: uma única barra e um fundo de tela. Todos os elementos gráficos que havia usado até este dia foram feitos por mim mesmo de modo amador, ou reaproveitados dos programas
de transmissão. Nesta transmissão, André Ribeiro - um ouvinte/espectador assíduo - fez
sua primeira colaboração gráfica no Speedy [[Ao Vivo]], e consta no início da transmissão uma nota de
créditos pelo design. André ainda me ajudaria outras vezes e sua maior
participação foi no especial de Halloween. No futuro falaremos um pouco mais do André.
Em um momento da transmissão eu chamo atenção para o
lançamento da versão 7.0 do VirtualDJ, programa que utilizo até hoje. A versão 7.0 foi lançada oficialmente em 12/10/2010 e já nessa época
eu fazia as traduções para português do manual e do arquivo xml que
traduzia os elementos de tela do programa para o português. Logo depois do playlist você pode ler minha história com VirtualDJ, ficou bem longa e vou contar por último pra não
perder o foco do blog.
Destaque para alguns trechos legais da transmissão: aos
1:31:03 peguei uma das webcams e de câmera na mão mostrei meu ponto de vista do
setup: duas SL-1210MK2 cinza ainda antes da reforma que fiz em 2017, dois notebooks
HP (um para transmissão e outro para tocar), um mixer Gemini SP-01, e uma
Hercules DJ Control MK2 que usava principalmente como soundcard para DVS. Também
a boa e velha apagada de luzes com laser em “Techno Corner”. Pela primeira vez percebi que usei uma “auto propaganda” nas minhas
transmissões, com tela dividida mostrando as câmeras mas com o horário e dia
do programa em um elemento gráfico (que não foi feito pelo André).
E pra variar aqueles bons momentos de mais puro amadorismo e
técnica ruim: nos primeiros minutos não desliguei o áudio do dispositivo padrão
do computador e com isso, gerou retorno de transmissão (o que eu transmitia era
reproduzido pelo áudio padrão e retransmitido); ainda no começo do primeiro
bloco as transições rápidas de câmera causando desconforto na assistência; sampleando desastrosamente com vinhetas em “The Train” e “Forever This”; e scratches ruins em “Alice In
Wonderland”.
Observar estes momentos hoje servem de lição para que eu faça
transmissões melhores no futuro. E sobre os scratches ruins que se repetem em todas as transmissões, eu realmente
pensava que por conseguir imitar um pouco scratches feitos pelo DJ Marky no CD “Audio
Architecture” - mais especificamente com um trechinho de “The Specialist” - me habilitava
realizar “scratches” com o “beep” do sinal timecode em todos os meus programas.
Uma lástima.
Nos chats a companhia de: Paulinho Lima aka Palinho Krazy,
Alexandre Macedo, Bianca, Mateus, Ricardo Cabral, Teozinho, Fernando, André
Ribeiro, Igor Dantas, Hugo CBN, Eeeeeu, Digotog, DJ Pea, Biologic Mago,
Selminha Vida Loka, Fabio, Cosminho, DJ Dri, DJ Sonic, DJ Yuri, Fabio (outro,
mas de Betim-MG), Line e Sonic, Lino KDRA.
1° Bloco
00:05:54
BenDJ - Smile (Extended Mix)
00:09:50
Dennis The Menace ft. Mrkus Bnapfl & Rachele – Sunshine In My Heart
(Original Mix)
00:14:51
Kickstarts – Example (Extended Mix)
00:19:27 Jessie
Diamond DJ - Touch My Body (Jessie Original Mix)
00:23:07 Nicola Fasano ft. Paula B. - Missing (Despsalt 2010
Remix)
2° Bloco
00:33:08 Oliver
$ - Shaka-Lao (Original Mix)
00:37:30 Pablo
Rindt & Bobby Rock - 12 Inch Gold (Instrumental Mix)
00:42:25 Fries
& Bridges - Forever This (Original Mix)
00:45:10 Sascha
Braemer - The Train (Original Mix)
00:49:30 Shingo
Nakamura - Alice In Wonderland (Luiz B. Remix)
00:54:33 Skunk
Anansie - My Ugly Boy (Benny Benassi Remix)
3° Bloco
01:01:46 Bloc
Party - One More Chance (Tiësto Remix)
01:06:27 Não identificada
01:09:36 The
Prodigy vs. Afrojack - Prodigy On Pacha Acid Once Again (G. Reg Bootleg)
01:15:14 Tinie
Tempah vs. Bomfunk MCs - Pass Out The Freestyler (DJs From Mars Club Remix)
01:17:57 Syke
n' Sugarstarr & Alexandre Prince - So Alive (Extended Vocal Disco)
01:23:12 Mightyfools
& Sharkslayer - Devils Marbles (Club Mix)
4° Bloco
01:30:15
Kelly Rowland ft. David Guetta - Commander (Sidney Samson Remix)
01:35:24 Julina
Jeweil - Techno Corner (H2 Remix)
01:40:34 Jose
Spinnin Cortes vs. Tom Novy - Your Iberoamerican Body (Thomas Gold Booty)
01:44:13 Franky
Rizardo & Barry Barrylas feat. Nathasja - Story of Love (Original Mix)
01:50:05 Faithless
- Sun To Me (Jerome Isma-Ae Remix)
Eu já discotecava desde os anos 90 quando no início dos anos 2000 o amigo e compadre DJ Joffre Martins me mostrou no monitor CRT de um velho computador um programa chamado ATOMIX MP3 e realizou algumas mixagens.
Neste dia eu não percebi mas estava presenciando um momento de inovação na
indústria, e como já usava CDJ’s para tocar pensei que aquilo nunca iria me
afetar. Era apenas mais um brinquedo e só. Afinal, o vinil havia reinado soberano por mais de 60 anos como meio de reprodução de áudio e o CD bem como outros formatos de mídia digital tinham se tornado populares havia pouco mais de uma década e o computador era uma ótima ferramenta pra conseguir música e gravar CD. Porque alguém iria querer discotecar usando só um computador? Eu nunca estive tão enganado...
Os anos se passaram e nos idos de 2004 minhas CDJ-500II
apresentaram defeito. O equipamento já era pouco confiável pois quando comprei ainda
não existia o sistema de amortecimento do leitor de CD - implementado no CDJ-700S mas largamente popularizado em 1998 no modelo CDJ-100S que se tornou a escolha de 99 entre 100 DJ’s
- e a vibração das caixas de som trazia falhas no áudio que ficava picotado e
pulando. Infelizmente, desta vez o problema se deu nas unidades de leitura e a troca do leitor bem
como adquirir novas CDJ’s era impossível pelo alto custo. Reativar minhas
SL-1210MK2 era bem mais barato, e me coloquei a pesquisar uma outra inovação
recente da indústria: o Final Scratch, lançado por volta de 2003 pela Native Instruments
e implementado com software Traktor. Com este sistema era possível tocar as
músicas em mídia digital diretamente do computador usando um vinil com um
sinal especial que possibilitava que o programa “imitasse” os movimentos feitos
com o vinil. Esse tipo de sistema é conhecido como DVS (Digital Vinyl Simulation ou Simulação Digital de Vinil). Era como se estivéssemos realmente tocando uma música no vinil e
ideal para reabilitação dos meus toca discos sem precisar adquirir dezenas de discos de vinil,
o mp3 era muito popular e a pirataria rolava forte que significava custos
baixíssimos pra continuar discotecando. E ainda conseguiria mesclar os mundos do analógico que estava tão acostumado, com o digital DJing recém chegado mas já se mostrando como o caminho a ser seguido.
Entretanto, o Final Scratch era pouco maleável e exigia
compra de hardware próprio. O kit com CD, vinil, placa de som e o programa não era achado com facilidade no
mercado nacional e o equipamento caro afastava o Final Scratch como opção.
Então busquei ferramentas que fizessem a mesma coisa, foi quando encontrei o
VirtualDJ 4.0.
O VirtualDJ é um programa desenvolvido pela empresa Atomix
Productions e a evolução do Atomix MP3. Nesta época o programa já contava com um
motor timecode (ou engine) próprio mas com uma diferença: aceitava muitas
opções de hardware e era possível fazer simulação de vinil até mesmo com placas de som comuns,
dessas que já vinham no computador. Isso era
ideal para pessoas como eu que estavam com orçamento justo. E a pirataria do
software já era extremamente comum, o que facilitava ainda mais o acesso. Mas
havia um problema: como fazer funcionar? As informações em português eram muito
escassas. Minha maior fonte na época foi o site do Arvy – ou Rogério Vitiello
ainda no ar com arvy.com.br – mas ainda assim, o processo de simulação DVS era
raramente abordado nos tutoriais. Então, precisei buscar informação com os “donos”
do programa, e pela primeira vez busquei ajuda na comunidade internacional virtualdj.com.
Entretanto meu inglês era ainda mais limitado do que é hoje e eu não conseguia
desenvolver uma boa comunicação. Contando o fato que a comunidade era tóxica com
iniciantes e racista, não houve nenhuma gentileza quando um cara do terceiro
mundo com inglês ruim apareceu por lá perguntando sobre timecode. O primeiro
contato foi péssimo. Tão ruim que a partir daquilo desenvolvi uma grande ojeriza
pela comunidade. Fiz um e-mail falso no yahoo utilizando o nome do rato
Ligeirinho como referência (Speedy Gonzales no original em inglês) pois como
todos sabem, Ligeirinho é a figura estereotipada do mexicano e alvo de xenofobia,
mas que no fim acaba se sobressaindo ao mau tratamento imposto pelo gato gringo
e o engana para sobreviver. Tudo a ver, não? E com este e-mail abri
minha conta no site virtualdj.com. Entretanto, eu não era o primeiro Speedy Gonzales a
se cadastrar no yahoo, e meu e-mail acabou recebendo o sufixo 53 ficando então speedy.gonzales53@yahoo.com e
gerando o nickname SPEEDY53 que até hoje me acompanha na comunidade VirtualDJ.
Como o primeiro contato foi ruim, botei na cabeça que
independência da comunidade oficial seria a melhor forma de chegar ao meu objetivo, e então acabei participando
de comunidades brasileiras sobre VirtualDJ no Orkut e estudando o manual do
programa. O manual foi a chave para que eu tivesse sucesso na configuração do
meu primeiro sistema timecode. Usando placas comuns do computador, sendo uma Creative
off-board e uma Soundmax on-board, e importando dois pares de vinis timecode
VirtualDJ com ajuda de um comprador do setor de compras da empresa onde trabalhava,
configurei com sucesso meu primeiro sistema DVS. A primeira festa que fiz
utilizando esse sistema foi o ano novo de 2006/2007 na casa de minha cunhada.
A partir deste primeiro sucesso, vi que havia ali um terreno a ser explorado. A falta de informação sobre VirtualDJ era inversamente proporcional à popularidade do programa principalmente entre DJ's iniciantes brasileiros que em sua maioria tinham um VirtualDJ pirata rodando em seus computadores. Então percebi que poderia compartilhar informação sobre o programa, pois era muito provável que outras pessoas que também estivessem na mesma situação que eu aprendessem com minha experiência. Em retribuição à ajuda que recebi comecei a ajudar pessoas nas
comunidades do Orkut e com isso, conheci todas as pessoas que entre outras
coisas, me possibilitaram realizar este programa na rádio VirtualDJ e que hoje
vocês conhecem pelas transmissões e pelo blog – mas estou adiantando informação
afinal isso é 2010 e ainda não chegamos aqui cronologicamente.
O ano de 2007 foi de aplicação nas comunidades do Orkut. Obtive
sucesso em outras configurações e escrevi tutoriais sobre os temas de problemas
mais recorrentes no VirtualDJ, como por exemplo configurar pré-escuta e gravação
dos sets mixados em mp3. Com este sucesso relativo tive mais autoconfiança para voltar
a participar da comunidade internacional VirtualDJ, onde basicamente
questionava o motivo de não possuirmos um espaço para usuários em português
onde eu pudesse fazer o mesmo que já fazia no Orkut. Foi quando um dos membros
do time de desenvolvimento começou a me dar ouvidos. Hoje aposentado e longe da
comunidade, Rick Hodgkins ou MP3JRICK é um americano gente boa a quem devo a melhora do meu status na comunidade oficial e que me explicou por que VirtualDJ tinha fóruns em diversas línguas, exceto português.
Primeiramente, Rick falou sobre a barreira do idioma.
Não havia muitos candidatos que fossem confiáveis, participativos na comunidade e tivessem algum domínio do VirtualDJ, falassem português, tivessem um “engasgo mínimo” em inglês (sim ele
usou “grasp”) e estivessem interessado em moderar um fórum. São muitos pré-requisitos e pouca gente. Havia um DJ da rádio
VirtualDJ oficial que se encaixava neste perfil e já havia aceitado moderar o primeiro fórum, mas infelizmente ALEX J. abandonou a missão e não via isso
como prioridade, e havia também o amigo Paulo Ourives ou DJ_BURN que entrou para a rádio oficial VirtualDJ também em 2008 mas da mesma forma não estava focado em fóruns.
A primeira tentativa de se estabelecer um fórum em português foi
um fracasso total, pois sem monitoração o fórum acabou se tornando um local de
compartilhamento de programas e adicionais obtidos por pirataria o que levou a seu fechamento. Rick viu que eu poderia ser um candidato, mas era
necessário ser usuário de uma licença Pro Full (era o nome na época) genuína.
Com esse vislumbre da possibilidade de crescimento desembolsei
US$ 299 (sim, sempre foi o preço da licença até hoje) e comprei minha licença em
Mar-2008. Nos próximos meses solicitei por diversas vezes a reabertura do fórum
em português o que acabou não acontecendo. Me senti mais uma vez enganado e
voltei com força aos fóruns em português no Orkut.
O que realmente me diferenciou como membro nas comunidades brasileiras foi apresentar a primeira versão traduzida para português do manual
do VirtualDJ. Em Abr-2008 fiz a tradução do manual da versão 5.0 rev.4 a partir
do arquivo language.xml do LeandroDeejay e postei nas comunidades. O manual era
diferente do original pois já possuía um sistema de glossário para termos
impossíveis de traduzir e um índice ativo. E a tradução me fez conhecer com
mais detalhes recursos do VirtualDJ o que me deu mais informação para tutoriais
sobre coisas pouco utilizadas e aumentou minha frequência de postagens, o
que me projetou um poco mais nas comunidades do Orkut. Os donos destas
comunidades começaram a me contatar para ajuda e acabei moderando algumas delas. Frustrado por não conseguir a
reabertura do fórum oficial em português, sendo dono de uma licença VirtualDJ mas
participando das comunidades brasileiras no Orkut abriu uma nova possibilidade de
compartilhar adicionais VirtualDJ nestas comunidades (skins, efeitos, ferramentas, plugins, etc.). Mas era bom evitar
assédio direto, e criei uma conta falsa com nome "Mago" para postar estes adicionais. Poucas
pessoas das comunidades sabiam que eu era dono de uma licença e assim foi por
muito tempo, mas eu realmente tornava a comunidade mais ativa pois compartilhar
adicionais VirtualDJ era algo muito raro em qualquer lugar. Eu tinha pastas com todos os adicionais do programa e por alguns meses, pinçava alguns deles para
compartilhar atendendo solicitações nas comunidades, além de atender pedidos de amigos para os quais
eu abria o jogo e me revelava dono de uma licença.
Hoje, com a experiência, enxergo que não foi bom incentivar comportamento
ilegal como pirataria de software, mas no contexto da época me sentia em dívida
com aquelas pessoas pois me receberam bem em sua comunidade, algo que não
aconteceu na comunidade oficial. Por isso continuava insistindo no erro e nem
me sentia tão mal assim, pois infelizmente na época e até hoje pirataria de
software é regra em nosso país ao invés de exceção.
No final de 2009, fui procurado novamente pelo time VirtualDJ oficial. Já me
sentia afastado da possibilidade de participar de um fórum em português, mas então MP3JRICK me ofereceu a moderação do fórum que seria reaberto. Inicialmente eu
recusei porque ainda estava ressentido, mas em uma conversa com outro membro, um
suíço chamado Mike e fã do nordeste brasileiro, me fez enxergar o quanto estava
sendo infantil ao recusar algo que sempre me dediquei conseguir. Aceitei
o convite e o fórum em português foi reaberto em Dez-2009.
O trabalho de moderação exige dedicação. Ao contrário do que pode se pensar, não é preciso conhecer todas as respostas e detalhes profundos do programa. Basta ser curioso o bastante para procurar pois certamente alguém já havia passado ou estava passando pelo mesmo problema. O que fiz durante anos foi pesquisar respostas nos fóruns em inglês, analisar os resultados e apresentar soluções aos membros em português. O chato nesse trabalho é a repetição: postar as mesmas coisas quase todos os dias, pois as dúvidas são quase sempre as mesmas. Isso, aliado ao fato que a maior parte das pessoas quer resultado rápido com esforço mínimo, leva a um sem fim de perguntas e respostas iguais a cada dia. Incrivelmente tedioso. Mas ao mesmo tempo sempre tem aquele assunto desafiador, que te leva a realmente buscar e aprender que foi afinal o que fiz desde que comecei a usar VirtualDJ. Pesquisar manuais para responder perguntas sobre equipamentos que nunca vi na minha frente, verificar informações em sites de discussão e dos próprios fabricantes, buscar procedimentos de como fazer as coisas funcionarem para entender um pouco e direcionar quem precisa. Isso é o que me levava em frente.
Como moderador do fórum oficial precisei rever a minha postura em relação a
pirataria e participação de espaços não oficiais. O tempo dedicado ao fórum
oficial fez com que eu reduzisse minha participação no Orkut e não
compartilhasse mais adicionais. E problemas enfrentados com um keylogger
(descobri que um adicional para criação de skins estava na comunidade Orkut desbloqueado
com minha conta de usuário) fez que eu adotasse um comportamento antipirataria
pois senti na pele o que pode acontecer quando instalamos programas não
autorizados em nossas máquinas. No fórum em português não deixamos de ajudar
usuários de programas pirata, mas sempre que detecto a
possibilidade de uso de software ilegal procuro orientar sobre a dificuldade de
resolver problemas para quem usa uma ferramenta modificada, os riscos desse
comportamento, e a incoerência de se pedir ajuda em uma comunidade oficial para
um programa obtido de forma ilegal na internet.
Uma vez que o processo de tradução foi minha principal porta
de entrada na comunidade do programa, continuei traduzindo materiais sobre VirtualDJ. Traduzi manuais das
versõs 5.1 (Jul-2008), 6.0 (Ago-2009), 7.0 (Set-2011) e 8.0 (Jan-2015). A
partir de Jun-2010 lancei minha própria versão do arquivo de tradução
do VirtualDJ como plugin do programa, que era coerente com a minha tradução do manual. Abro um parêntese aqui porque a grande maioria dos adicionais disponíveis para VirtualDJ é criada pela comunidade, usuários que começam participando de fóruns e acabam se desenvolvendo na comunidade e ganhando status, e os mais desenvolvidos e com conhecimento de programação são criadores de plugins e muitos deles acabam contratados pela empresa para trabalhar no time principal de desenvolvimento do núcleo principal do VirtualDJ. Mas pra mim, ainda que nunca soube programação, não foi muito difícil criar um arquivo xml de tradução: só precisava entender um pouquinho da sintaxe e um bom software editor que te apontasse os erros. A grande verdade é que usei muito Excel pra escrever esta tradução (eu só substituía a parte "traduzível" do arquivo original em inglês pelo meu texto em português). Essa pequena experiência com a tradução ajudou bastante na parte de mapeamento de controladoras, pois da mesma forma a sintaxe destes arquivos de mapeamento é muito simples, feita para pessoas que não precisam conhecer programação a fundo. Como na época a
Atomix Productions recompensava financeiramente os desenvolvedores de plugins
com alguns centavos de dólar a cada download, como a tradução era muito baixada comecei
a ser recompensado financeiramente por este trabalho. Pena que essa política
mudou algum tempo depois, mas foram algumas dezenas de dólares depositados em
minha conta PayPal. Sempre pensei que poderia ter seguido este caminho... bastava aprender um pouco de coding em alguma linguagem usada no VirtualDJ, mas enfim não foi por aí que a coisa andou.
Em Jul-2013 tivemos uma modificação importante no site oficial com a criação da VirtualDJ wiki. A exemplo da Wikipédia, a VirtualDJ wiki era um espaço colaborativo aberto a todos os usuários que quisessem ajudar com artigos sobre os mais diversos temas relacionados a DJing e VirtualDJ. Decidi criar uma cópia da wiki VirtualDJ mas em português, postei dezenas de tutoriais que já tinha prontos no Orkut e traduzi vários artigos oficiais VirtualDJ (como o FAQ ou PERGUNTAS FREQUENTES) que viraram minha referência de pesquisa: ao invés de postar sempre as mesmas respostas, eu direcionava para links da wiki com respostas prontas. Isso facilitava 90% do meu trabalho e reduzia incrivelmente a necessidade de me repetir a cada vez que alguém perguntava a mesma coisa, tanto que apesar do conceito de wiki implicar em artigos abertos para edição de terceiros, eu bloqueava todos os artigos de minha autoria pra evitar que fossem apagados por algum desavisado.
Sobre esta questão da repetição, me lembra uma história que aconteceu no fórum. Um belo dia estava respondendo uma pergunta dentre dezenas que aparecem todos os meses e senti uma sensação de déjavu. Parecia que eu já tinha passado por aquilo antes e o nome do usuário que havia postado não me era estranho. E como Teamer temos acesso a alguma informações interessantes que não são abertas, me pus a pesquisar o histórico de postagens daquele usuário. Descobri então que aquele era o terceiro ano seguido que ele postava exatamente a mesma pergunta. Exatamente o mesmo texto só que em posts diferentes. Isso seria indetectável, mas o que mais me impressionou que era proposital: o nickname do usuário trazia a palavra haicai, que é um tipo de poesia que fala de coisas do cotidiano em geral com muito humor que pode ou não trazer temas repetitivos. Achei aquilo muito bem sacado, subverter totalmente o objetivo do fórum. Sem dúvida foi a coisa mais inesperada que achei por lá, não sei se estava certo em minha dedução mas me impressionou muito.
Como minha participação na comunidade oficial era muito frequente e
já com 2 plugins do programa inscritos e largamente utilizados, em Mai-2013 fui convidado a participar do time de
suporte VirtualDJ. Por ser membro do suporte, eu recebi acesso a uma área exclusiva do site chamada LAB onde recebíamos tickets postados por usuários do mundo inteiro. Minha responsabilidade era responder os tickets em português para plataformas PC e Mac. Foi um desafio falar sobre Mac OS pois só passei a usar Mac dois anos depois, mas como a grande maioria dos usuários era de PC nem foi tão complicado assim. Como compensação por minha participação no suporte recebi
uma assinatura gratuita de todos os planos Content Unlimited.
Content Unlimited é um plano de conteúdo online para VirtualDJ, e resumindo é possível pagar para ter acesso a milhões de arquivos de áudio, vídeo e karaokê e baixar por streaming estes arquivos diretamente no deck do programa. Esse plano foi criado como resposta a acusações de pirataria contra Atomix Productions pois existia um recurso antigo do VirtualDJ chamado Netsearch que permitia reproduzir conteúdo online não autorizado nos decks do programa, então dava pra tocar vídeos do YouTube e outros sites sem nenhuma compensação financeira aos autores. Com as críticas e potenciais processos a empresa decidiu firmar parcerias com sites oficiais de hospedagem de conteúdo e cobrar por isso através de planos de assinatura mensal. Ainda assim, houveram problemas na escolha pois o primeiro parceiro provedor de arquivos de áudio Grooveshark foi processado por hospedar arquivos e não pagar direitos e teve que retirar sua página e conteúdo do ar como parte do acordo que envolveu uma multa milionária e levou o serviço à falência. Atualmente, o Content Unlimited está ativo com parceiros mais confiáveis, e VirtualDJ ostenta o título de primeiro programa de DJ a oferecer conteúdo legal online e firmar parcerias com outros serviços como o Spotify (ativa entre Mai-2017 e Set-2017), Deezer, Soundcloud, TIDAL, Beatport, Beatsource.
Minha assinatura gratuita Content Unlimited está ativa até hoje e se fosse paga, eu teria um gasto mensal de US$ 80. Então posso
dizer que essa é atualmente a única compensação financeira pelo meu
trabalho. Atendi centenas de usuários VirtualDJ de vários países em língua portuguesa como
suporte oficial e ajudei muita gente a resolver seus problemas, mas importante
citar que em nenhum momento tive nenhum vínculo empregatício ou contrato, a
contribuição voluntária sempre foi a regra deste relacionamento o que de certa
forma me dava alguma independência para discordar de algumas posturas da Atomix
Productions. Desde minha admissão no time de suporte passei a ser responsável
pela tradução oficial do programa para língua portuguesa, essa tradução é feita
dentro do LAB e a cada novo termo provocado por novos recursos do programa é necessário providenciar a atualização de termos, o que faço até hoje. Em 2015 foi criado o canal do suporte
Atomix no Slack, mantido até hoje e principal forma de comunicação entre os
membros do suporte e a direção da empresa, uma vez que todo o time Atomix Productions trabalha remotamente.
Uma das coisas que sempre gostei no VirtualDJ foi ser muito maleável com vários tipos de hardware. O que me ajudou muito no desenvolvimento do meu setup ao longo dos anos. No início, como a resposta de placas de som comuns para DVS era muito precária, minha primeira ação foi adquirir uma placa de som própria e compatível com timecode e fiz isso em Jan-2008 comprando uma placa ESI-U46DJ. Em 2009 substituí esta placa dedicada por um controlador HERCULES DJ CONTROL MK2 que também me dava possibilidade de usar somente computador em festas, sem precisar levar o sistema DVS. Mantive este setup até 2015 quando foquei na utilização particular sem necessidade de mobilidade para festas externas, e adquiri ao mesmo tempo um mixer DJM-900NXS e um par de CDJ-2000NXS, onde consegui que meu setup fosse compatível com todos os formatos de mídia que pudessem ser utilizados por um DJ. Também em 2015 alterei minha plataforma para MAC OS com um MACBOOK AIR e retomei minhas transmissões ao vivo interrompidas em 2011 usando um desktop PC para transmitir. Em 2017 substituí o desktop PC por um mais novo com processador i7 de 7ª geração e mantive VirtualDJ rodando em duas plataformas. Em 2018 adquiri um segundo DJ software e adotei o Serato como opção para DVS. Em 2022 substitui o AIR por um MACBOOK PRO M1. E o VirtualDJ esteve no centro e se adaptou a todas estas alterações.
E também existem as coisas que não gosto no programa que uso. Por incrível que pareça, percebi com o tempo que o maior diferencial é também sua maior fraqueza: maleabilidade. Na vida, existem pessoas que fazem poucas coisas muito bem, e pessoas que fazem muitas coisas mas todas elas de forma mediana. Se o programa se fosse uma pessoa, seria do segundo tipo. Ao mesmo tempo que cobrir uma faixa muito grande de aplicações abre aportas para muitos usuários e que os recursos básicos sejam muito bem atendidos, impede o programa de se especializar e alguns recursos ficam abaixo da concorrência. No meu caso, o motivo pelo qual adotei o programa foi o motivo pelo qual comprei uma licença Serato em 2018: o sistema DVS Serato é muito melhor e estável que o que eu utilizava. Serato e Rekordbox tem a visão focada em poucos hardwares mas lideram o mercado por trabalharem com os equipamentos mais utilizados e atenderem muito bem todos eles. Ainda, a política da empresa para forçar a compra de uma licença também não é legal. Da mesma forma que me senti coagido a comprar uma licença em 2008 para ter acesso a um fórum em português, hoje as versões gratuitas impedem uso da ferramenta de buscas (algo básico para um DJ é achar as músicas na sua coleção) e só permitem isso nas versões licenciadas. Isso é escroto demais. Algumas coisas que vi com o longo dos anos mas não tenho como provar nenhuma delas, como possibilidade de manipulação de resultados de concursos, pesquisas tendenciosas, estatísticas não muito realistas, me fazem ver que o jogo é sujo mesmo em todos os ramos de negócio.
Participei do time de suporte entre 2013 e 2020 quando o
sistema de tickets foi substituído pela ferramenta Zendesk que é desenvolvida por terceiros e gera custos por
usuário para Atomix Productions. Então, sem aviso ou justificativa, fui descartado do time de suporte em Jan-2020. Algum tempo depois, revendo as conversas que tive com um dos "chefões" da Atomix, vi que ele me perguntou quanto tempo eu poderia disponibilizar para atendimento. A verdade é que sempre tive o VirtualDJ como prioridade secundária, tenho um trabalho normal de onde retiro meu sustento e este trabalho sim é minha prioridade. Fui bastante sincero quando informei que não poderia disponibilizar mais tempo de minha rotina do que já fazia. A conversa terminou cordialmente por ali. Creio que talvez neste momento a Atomix tenha percebido que meu perfil de contribuição não seria alterado, e juntamente com o número baixo de atendimentos e a existência de outros Teamers de língua hispânica que entendiam português reduziram minhas chances de continuar no suporte. Na realidade é só suposição, nunca saberei realmente o que aconteceu.
Desde então mesmo sem ter perdido meu status de Teamer, voltei ao papel de moderação no fórum e mantenho o processo de tradução de novos termos em
dia. Com o avanço das ferramentas de tradução online e inteligências artificiais
voltadas pera interpretação de texto, a cada dia sinto que perco espaço e meu trabalho se torna cada vez mais desnecessário. Já não traduzo mais os manuais do VirtualDJ pois a tradução online dos navegadores Chrome e Edge é muito acurada. E agora, com o GPT4, creio que é uma questão de tempo até que seja implantada alguma solução definitiva para eliminar de vez o processo de tradução manual dos termos do software.
Nesta caminhada conheci um pouco mais sobre as pessoas que fazem a Atomix Productions. Fui destratado por muitos pois infelizmente apesar de possuir um time internacional, multicultural e multigênero, ainda existe bastante preconceito das pessoas de países desenvolvidos em relação aos países em desenvolvimento, ainda mais no caso de uma pessoa que mesmo sem saber escrever uma única linha de comando acaba chegando no time de desenvolvimento e suporte de um dos maiores programas para DJ do mercado. Tive ajuda de alguns poucos a quem agradeço o apoio. Da mesma maneira que agradeço, como em todo ambiente de trabalho tem gente que merece outra coisa, mas tenhamos hombridade neste momento.
Talvez tenha me faltado um pouco mais de firmeza em minhas posições quando tratado de forma injusta, mas meu perfil pessoal é de evitar conflitos, por isso tenho que admitir sofrer da síndrome do vira-lata. Mea culpa.
A essa altura o leitor já percebeu que minha relação com a Atomix é de altos e baixos. A decepção mais recente ocorreu em
Mar-2022 quando foram removidas do site oficial toda a wiki em
português e centenas de links postados no fórum em português entre 2013 e 2020 usados como referência para dezenas de páginas com informações que eram concentradas nesta wikipage foram perdidos, bem como centenas de horas de trabalho e todos os tutoriais que criei ao longo de anos e migrei do Orkut para o site VirtualDJ. A justificativa foi que se tratava de informação antiga e desatualizada. Tentei recuperar estas
informações mas sem sucesso. No dia que vi mais de 10 anos de trabalho descartado, me despedi
oficialmente dos poucos amigos que fiz no slack Atomix e agora estou no aguardo do dia em
que perderei o acesso ao slack, o Content Unlimited e serei oficialmente dispensado... e provavelmente nem serei avisado quando isso acontecer e só perceberei as mudanças em minha conta.
Hoje, é impossível não reconhecer as mudanças e impactos
trazidas pelo software no mundo DJ. A diminuição dos custos pela possibilidade
de trabalho com controladoras aumentou muito a procura por esta profissão. O DJ
saiu da cabine solitária do clube ou bar, foi reconhecido como artista e entrou
no mainstream frequentando palcos de megafestivais de música eletrônica e sendo
nome na frente do sucesso de diversos artistas. A discotecagem digital é regra
ao invés de exceção. Programas com Serato, Rekordbox são referências e
VirtualDJ continua hoje como uma das 3 principais ferramentas para DJ. Não tenho estatísticas mas sei que ajudei
muita gente e fico feliz por ter surfado esta onda ao invés de ser atropelado por ela (bom, no finzinho rolou uma "vaca" de leve...) mas ajudei o mercado a chegar
onde estamos hoje. Fico feliz por ter encontrado muita gente boa neste caminho, outros DJs apaixonados que de alguma forma se encontraram na mesma situação que eu em algum momento e que acabaram virando grandes amigos.
Sinto muito não ter provocado em ninguém a mesma vontade de contribuir que tive quando comecei. Vi passar pelo fórum algumas pessoas que realmente tinham potencial mas nunca senti em nenhum deles a vontade e o compromisso necessário, nunca ninguém buscou se dispor, nunca ninguém insistiu em uma oportunidade para crescer na comunidade, por isso não fiz por eles o que MP3JRICK fez por mim. Ainda pode ser feito, quero passar o bastão, mas não sei quanto tempo ainda tenho....
Caso não ache ninguém me resta divagar sobre o futuro... na minha saída, talvez percamos um tutor do fórum. Sem cuidado, talvez o fórum volte ao mesmo estado que encontrei quando comecei e se ninguém na Atomix se sensibilizar e achar que todo aquele texto só está tomando espaço no servidor talvez seja novamente fechado. E desta vez, realmente nenhum registro restará de toda essa dedicação. Só me resta a esperança que alguma ferramenta de machine learning utilize tudo o que escrevemos como base de conhecimento e que haja algum proveito de tudo que se passou por lá. Afinal, tudo é um ciclo. Quem será que vai começar o próximo?